o acidente
1° parte

Virei o pescoço para o lado, mas não abri os olhos. A dor tomava meu corpo, principalmente na coxa direita. Continuei com os olhos fechados então movi os dedos, consegui fechar a mão esquerda da qual estava mais esticada que a direita, um pouco acima da cabeça. Senti pegar um punhado de folhas, raízes e terra. Onde eu estava? O que havia acontecido?
Abri os olhos, mas apenas enxerguei com o direito muito mato e galhos. Era noite e os únicos sons que eu podia ouvir eram os grilos que berravam ao meu redor. Tentei afirmar as mãos para levantar a dor apertou em minha mão direita e quando fui ver o dedo anelar, ele estava totalmente virado para cima – meu deus, meu dedo está quebrado, que dor, que dor – com a outra mão peguei o dedo devagar e respirei fundo duas vezes, tentei esvaziar meus pensamentos e num impulso o pus para baixo, urrei de dor e não consegui conter as lágrimas, o que estava acontecendo comigo? E por que eu estava toda machucada daquele jeito?
A ultima lembrança antes de acordar era que eu havia ido buscar sendy, minha filha de nove anos na escola de carro e que eu havia levado o pequeno Enzo de apenas dez meses no bebê-conforto. Então o medo tomou-me por completo. Só podíamos ter sofrido um acidente e eu ter sido jogada para fora do carro. Mas e meus filhos? Onde eles estavam? Estariam feridos ou mortos? – que horror, que horror – tentei levantar, mas vi que o ferimento na minha coxa era feio. Sentei par vê-lo. Havia muito sangue na calça, rasguei, dava para ver o branco dos nervos e um corte de aproximadamente doze centímetros. Com a própria calça que eu havia rasgado a envolvi acima do ferimento e amarrei com força, tentativa de estancar o sangue.
E meu olho esquerdo? Porque eu não enxergava com ele? Eu estaria cega? Mas minha saúde era a ultima coisa que me importada, pois eu só queria saber onde estavam meus filhos. Olhei para o lado e achei um galho, o peguei e o fiz de bengala para conseguir levantar. Consegui com muita dificuldade e então consegui enxergar por cima do matagal. Olhei para um lado e ao me virar para o outro vi o meu carro do qual estava capotado a uns vinte metros da onde eu estava. Pulei apenas com a perna esquerda e dobrei a direita, sempre me apoiando no galho. Com este salto parecia que mais ossos estavam quebrados, pois meu corpo por inteiro doeu muito. Se apenas um passo havia sido tão doloroso, dava-me falta de ar e vertigens em pensar quantos saltos eu teria que dar até chegar ao carro. Consegui dar mais três passos até ouvir um gruído muito alto que chegou a dar-me um frio na coluna. Qual animal teria feito aquele som? Eu ainda não sabia, mas percebi que tinha de chegar La o quanto antes. Pulei mais umas quatro vezes, dolorosos quatro pulos. Alguém puxou-me para baixo pela camisa e tapando-me a boca.
- não grite, eu não vou te machucar – disse um velho. Acocado comigo. Ele não tinha menos de setenta e cinco anos. Tinha os dentes podres, muito sujo e maltrapilho.
- ajude-me senhor meus filhos estão dentro do carro, eles podem estar feridos – disse-lhe com um tom de medo.
Ele tapou minha boca novamente.
- não fale alto moça, ele vai nos ver!
- quem vai nos ver? – disse sussurrando.
- Eu não sei se ele tem nome, eu não sei nem se ele é humano.
- mas por que temos de fugir dele?
- porque se ele te achar, ele te leva pra casa e come sua carne e nem se preocupa se você está viva ainda, então não grite e faça tudo o que eu disser se quiser viver e salvar seus filhos.
Apavorada balancei a cabeça concordando com o velho
- vá em direção ao carro arrastando-se, tente não fazer barulho e eu vou distraí-lo. E se ele te pegar, que Deus tenha piedade de sua alma. – o velho vai à direção contraria do carro abaixado. Até que se perdeu na mata alta.
Fui em direção ao carro rastejando como aquele homem havia dito mais apavorada que antes. – já não chegava eu estar toda machucada, com um olho cego, o dedo quebrado, a coxa rasgada, com o desespero de saber que meus filhos estão num carro capotado e agora saber que tem um maníaco canibal atrás de mim. Meu deus! – continuei a rastejar e derrepente mais um urro agora mais próximo.