quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A missão

- Mais um dia, hoje é apenas mais um dia. Estou aqui na minha velha cadeira de balanço e aos meus pés meu único e verdadeiro amigo, Tóby, um cão da raça policial, do qual me acompanha há tantos anos. Hoje ele não tem muita visão e treme quando ouve um latido mais forte. Lembro-me de quando ele era novo, com vigor, eu já era velho, mas infelizmente para os cães o tempo passa muito mais rápido. Não tinha cachorro mais bravo do que Tóby em todo o quarteirão, ao contrário de hoje em dia, ele que fazia os outros cães tremerem só com o seu latido. Mas agora ele mal tem forças de mastigar sua ração.

Vejo crianças brincando no outro lado da rua, lembro de quando eu era jovem que subia e descia de árvores, quando eu jogava bola com meus amigos, quando eu trabalhava para o exercito, resumindo quando eu ainda sentia-me útil. Agora que já estou velho, não tenho mais nada a que fazer apenas viver o dia de hoje do mesmo jeito que eu vivo o dia de ontem e como vou viver o dia de amanhã. Não tenho mais expectativas de vida, como pudera também? Já tenho oitenta e sete anos e nessa idade fazer planos para que? Para viver dois ou três anos? Deixar o que vou conquistar para o governo? Só se for, pois nunca tive filhos e minha amada esposa morreu há sete anos atrás. Então vou seguindo assim como estou, não atrapalhando ninguém e não sendo atrapalhado.

O que mais pergunto a Deus é porque estou aqui, nunca fiz algo de tão útil. Algo do me marcasse até depois de minha morte. Não para ganhar méritos, mas sim para ficar bem comigo mesmo e saber que meus oitenta e sete anos valeram para alguma coisa. Não que minha vida não tenha sido boa, mas foi boa apenas a mim mesmo, tornando-me até um ser egoísta. Algum tempo atrás achei que minha missão avia se concretizado, quando cuidei de Helen, minha amada esposa. Ela não conseguiu recuperar-se de um forte derrame que tivera, a doença paralisou-lhe todo o lado esquerdo do corpo e mesmo tendo setenta e oito anos ela gostara muito de arrumar-se bem. Na verdade Helen jamais deixou de arrumar-se muito bem, pois nos conhecemos jovens, ela mal fizera dezessete anos e nos casamos. Apenas deixou se abalar após descobrir q não poderia ter filhos, mas isso durou alguns meses e logo passou. Depois que Helen sofrera o derrame ela não queria nem a visita de amigos e visinhos, pois não queria o sentimento de pena de ninguém e nem que as pessoas vissem seu rosto deformado. Fiz tudo que poderia fazer por ela, comprava-lhe vestidos, maquilagem, na tentativa de levantar sua alto-estima, mas era sempre em vão, quando ela olhara no espelho sempre via a sua realidade. Helen parou de caminhar, de sorrir e de querer viver. Até que a depressão a levou de mim, deixando-me sozinho. Então achei que era esta minha missão. Mas logo percebi que não era minha missão e sim o amor, a convivência e o medo de ficar sozinho, não cuidei de Helen só por ela, mas sim principalmente por mim, e se fiz por mim não é uma missão.

Sempre venho para a varanda ver as crianças brincarem no parque, pois lembro de quando eu era criança e sinto muita saudade de minha mãezinha, parece que lembro como se fosse hoje, fazendo a comida com seu lencinho cobrindo seus longos cabelos, quando sentava comigo e ensinava-me os perigos do mundo. Quando cantava musicas lindas de ninar, dos quais fazia minhas pálpebras pesarem de sono, com a suavidade de sua voz e quando machucava-me após cair um tombo em uma árvore ela colocava-me em seu colo e balançava-me dizendo que já ia passar e realmente logo passava e lá estava eu sobre uma árvore. Mamãe falecera aos 32 anos de pneumonia.

O que fazer de janta? Sopa ou uma carninha assada? Que nada, farei um cafezinho e comerei bolachas salgadas, não vou ir para o fogão, estou com um pouco de dor nas pernas. Amanhã levantarei cedo para consertar a cerca que já está velha, não mais que eu, mas está. Apenas rindo de minhas desgraças consigo ter um pouco de ânimo para continuar aqui neste mundo. Pois quem não aceitar sua condição é não aceitar sua realidade e não aceitar sua realidade é querer ser algo que você não é. Então fica tudo mais doloroso. Basta entregar nas mãos de Deus e apenas pedir auxílio para fazer tudo o que for de seu agrado. Pois não quero ser punido lá encima, ainda mais agora que estou velho e tenho pouco tempo neste mundo. Vou levantar-me e entrar em casa e fazer o que já é de costume, ver fotos antes de dormir e chorar lembrando-me do passado e rezar pedindo a Deus que me leve logo já que não a mais nada a fazer neste mundo.

Meu Deus, o que é isso? Não acredito no que estou vendo, uma das crianças esta no meio da rua indo buscar uma bola, e um carro esta em alta velocidade indo a sua direção, tenho que fazer alguma coisa. Estou correndo o máximo que posso em direção a criança, falta pouco e o carro está cada vez mais próximo, não vou conseguir! Consegui a empurrar para a calçada... Jesus, o carro me pegou em cheio, estou muito machucado, não sinto meu corpo, a dor é tão grande, as pessoas que estão em minha volta estão apavoradas, devo estar com vários ossos quebrados. Vejo uma luz, uma luz forte e alguém da luz vem em minha direção. Nossa é minha mãezinha, ela está me pegando no colo e agora sou uma criança. Seu sorriso é lindo e seu canto fez minha dor parar imediatamente até que ela me pos ao chão novamente. Agora sou jovem e bonito e alguém bate em meu ombro, puxa... é minha Helen, a Mesma Helen que conheci quando tinha dezessete anos, linda.

Salvei aquela criança e seus pais ficaram muito gratos por mim, como todo o quarteirão batizando a praça com meu nome, Tóby foi adotado pelos pais da criança que salvei. Encontrei a paz e hoje sei qual era a minha missão.

Léo Ramos


Fátima A amante


Que emoção naquele momento, parecia que eu estava andando nas nuvens. As lágrimas não paravam de cair e eu já não sabia se ria ou chorava de tanta felicidade. Faltavam dez dias para o meu aniversário e sem dúvida nenhuma, aquele momento era o melhor presente que eu recebera na vida. Claro que com a ajuda de Deus primeiramente e a de Odranoel, meu marido que eu tanto amava.

- É um menino.

Disse o médico continuando a passar o aparelho do ultra-som no meu ventre. Eu podia ver até suas mãozinhas. Não via hora de passar os três meses que faltavam da gestação para ter meu bebê em meu colo. Odranoel não conseguia tirar os olhos do monitor. Em quatro anos de casamento eu nunca tinha o visto tão emocionado, ele chorou também, mas conseguiu se conter mais que eu.

Chegamos em casa depois da consulta e naquele dia parecia que recém tínhamos nos conhecido, nos beijamos, abraçamos, sempre cuidado para não apertar a barriga é claro. Ele levou-me até o quarto no colo e fizemos amor, foi amor mesmo, daqueles que contem mais caricias e beijo, junto com sorriso e palavras doces. Eu realmente o amava, e acreditava que ele seria o meu amor eterno e que nada e ninguém conseguiriam abalar este sentimento, mas eu estava enganada.

Amanheceu e quando acordei odranoel não estava mais ao meu lado, ele tinha saído sorrateiramente para não me despertar, passei a mão no ventre e dei bom dia para meu bebê como já era de costume. Levantei da cama ainda sonolenta e fui ao toalete. Havia jogado ao chão uma calça de odranoel, normal, ele não era muito organizado, levei-a direto para a máquina de lavar-roupas que era seu lugar e antes de jogá-la para ser lavada revisei os bolsos para que nada que não pudesse ser lavado fosse junto. Foi aí que começou o pesadelo, achei um pedaço de papel muito bem dobrado com número e um nome: FATIMA. Fiquei brevemente desconfiada, mas não dei tanta importância, pois odranoel trabalhava em um banco. Era normal ele ter anotado um número de telefone, podia ser tanto de chefias como de clientes, e, outra, ele não seria tão tolo de aprontar e ser tão descuidado. O importante era que eu confiava nele e ele por sua vez havia me dado tantas provas que era um homem sério e sem maus pensamentos. Não seria por aquele bilhete que haveria de desconfiar.

Neste mesmo dia Odranoel chegou uma hora atrasado, me deu um beijo torto e foi direto à cozinha para ver o que tinha para janta. Nem parecia o mesmo que um dia anterior estava tão feliz pela mulher e agora pelo filho que tinha.

- você está bem?

Logo perguntei.

E Ele respondera que sim, Só estava um pouco cansado de um dia árduo de trabalho.

- você chegou tarde hoje...

Tentei conter a pergunta, mas foi mais forte que eu.

- sim, estas estradas em dezembro é uma loucura, o transito estava um horror.

Eu podia ficar desconfiada, mas logo veio na mente, que não poderia ficar dando importância a coisas pequenas e dar motivos à briga já que eu estava tão feliz com os últimos acontecimentos.

Jantamos, conversamos um pouco e logo fomos para a cama. Ele parecia meio frio, pois eu acariciava seus cabelos, dava-lhe beijos e ele ficou ali como uma estátua, nem se quer beijou meu ventre dando boa noite para nosso bebê. Fiquei muito triste, quase chorei neste dia, mas não disse qualquer palavra, apenas deitei-me e dormi.

Ao amanhecer acordei com odranoel arrumado e cautelosamente procurando algo, fiquei o observando por algum tempo. Até que perguntei o que estava a procurar. Ele ficou me olhando por pouco tempo, como se não quisesse perguntar, logo soltou:

- você viu um papel que estava no bolso da calça que eu estava há dois dias atrás?

Era aquele papel com o número da tal de Fátima. Disse para ele onde estava. Ele deu-me um beijo, pegou o papel e foi ao trabalho. Aí sim, realmente comecei a desconfiar, será que odranoel estava me traindo? E logo naquele momento que eu estava tão feliz, que faltava tão pouco para nosso filho nascer. Pois se fosse algo sem importância ele me perguntaria sem temer.

À noite preparei um jantar especial, me dediquei ao máximo e ele não chegou uma hora atrasado, chegou duas horas. Ele realmente estava me traindo, como tinha coragem de fazer uma coisa destas comigo, logo comigo que era uma excelente esposa. Ele abriu a porta e eu não consegui disfarçar, nem queria na verdade. Apenas saí da mesa e fui para cama. Ele viu que eu estava brava e foi conversar comigo.

- Desculpe por ter me atrasado, tive que deixar alguns relatórios prontos para amanhã.

Mesmo querendo acreditar, sabia que tinha algo errado, ele tinha mudado comigo. Ou era uma amante, ou ele não estava feliz pelo nosso bebê. Fiz um esforço, levantei-me da cama e fui à mesa.

- Quem é Fátima?

Ele se desconcertou inteiro, não sabia se ria, falava ou se arrumava o colarinho. Mas respondeu que era uma cliente que aguardava sua ligação para fins de trabalho. Mentira, eu ouvia aquilo louca de raiva, era a mentira pior contada que eu ouvira na vida. Ele realmente estava me traindo, cafajeste, canalha! Ele Estava com ela estas duas horas de atraso e Deus sabe lá quando que começou a me trair com aquela vagabunda. Certamente havia sido pelo peso ganho pela gravidez, os enjôos, os desejos e a sensibilidade. A outra devia estar em forma, com um corpo escultural e na cama devia ser uma vadia sádica, que a única coisa que importava para ela, era o prazer de transar e de rir da gorda que o aguardava com a jantinha pronta em casa. Mas eu prometera a mim mesma que ele ia pagar. A vontade que eu tinha era de passar uma faca em minha garganta em sua frente, para ele carregar com sigo o remorso de sua mulher e filho terem morrido. Mas eu não teria coragem de fazer uma coisa destas, o meu filho estava em primeiro lugar.

Não disse nada para ele, tentei disfarçar o máximo, fui para cama e ele quis até fazer sexo comigo, como se não bastasse o que ele fez com a Fátima piranha. Disse que estava enjoada, virei-me para o lado, mas não consegui dormir, fiquei a noite pensando e imaginando na maldita traição.

No dia seguinte fui para casa de mamãe, pois ficava perto do consultório, tinha uma porção de exames a fazer. E lá ela poderia dar-me um melhor auxilio. Em nenhum momento descansei, pois Odranoel iria Levar a desgraçada para nossa casa, então não o dei sossego. Ligava para ele de cinco em cinco minutos dês de quando ele soltava do trabalho até amanhecer, dizia que eu não estava bem e ele acreditava. Passou dois dias que eu estava longe de Odranoel, e os exames ainda não aviam terminados. Naquele dia ele havia me atendido poucas vezes e a única certeza que eu tinha era que ele estava com a outra.

Mamãe havia saído e chegou em casa, com um semblante estranho, como se ela quisesse me contar algo.

- Filha, fui até sua casa, e vi algo que prefiro não contar-lhe, acho melhor você ver com seus próprios olhos. Mas não vá agora, vá depois da meia noite.

Insisti que ela me contasse, Mas não consegui tirar nada dela, mas já sabia o que era. Mamãe queria mostrar-me Odranoel com a amante.

O tempo parecia não passar nunca, até que o relógio soou meia noite. Mamãe não passaria a noite em casa, peguei o carro de mamãe e fui direto para casa onde eu pegaria os dois no flagra. Estacionei o carro no quarteirão anterior para não fazer barulho. Até que muito perto vi uma mulher aproximar-se da porta da casa com um pacote e pensei comigo - é a vagabunda! - Peguei uma pedra do tamanho da palma da minha mão e me aproximei dela. Ela era uma mulher jovem, aparentava ter menos de trinta anos, loira, corpo bonito, bem como eu estava imaginando, era a destruidora de lares, quantos homens ela deveria já ter enlouquecido para tirá-los de suas mulheres e filhos, era uma pessoa sem escrúpulos, dava nojo só de vê-la, ela era algo que não prestava.

- Qual seu nome?

Perguntei de uma maneira seca, e sem rodeios.

- Porque você pergunta?

Ficou um pouco surpresa por eu ter perguntado tão diretamente.

- Só me diga seu nome!

Apertei a pedra na mão.

- Meu nome é Fátima, por quê?

Deixando ela sem reação dei-lhe com a pedra com toda a força e raiva que eu tinha, bem na cabeça, fazendo-a cair sangrando aos pés da porta. Agora só faltava eu ir até ele e dizer o que eu tinha feito e que não queria mais nada com ele e mais, que eu não gostaria nem que ele fosse à cadeia me visitar. Abri a porta, e estava tudo escuro, até que chegando a cozinha as luzes acenderam-se:

- surpresa!

Em coro, todos gritaram. Minha família inclusive minha mãe, meus amigos e todos mais próximos. Fiquei boquiaberta ao ver aquela cena, não parecia verdade. Era uma festa surpresa para mim. Eles vieram abraçar-me e eu não tinha reação alguma.

- Que pena que você chegou antes do bolo. Fátima, a confeiteira, iria atrasar-se, Mas achei que ela conseguiria chegar antes de você.

Comecei a chorar e disse que eu havia feito. claro que enfeitei algumas coisas, disse-lhes que achava que ala era uma bandida que havia visto em um cartaz com o seu mesmo nome. Odranoel nunca soube que eu desconfiara dele um dia. Fátima saiu na mesma noite do hospital e recuperou-se bem e hoje ela é madrinha de Felipe.


Por Léo Ramos

Esperando papai noel



Chovia muito naquela noite, já passava das vinte e duas horas, era vésperas de natal e eu aguardava ansioso aos pés da janela a chegada do Papai Noel já sem esperanças, na verdade eu nunca havia visto sua chegada, mas pelo menos ele deixara aos pés da árvore um presente, mas nesse ano nem sequer um presente estava sob a árvore de natal. Eu poderia pensar várias coisas se ele continuasse insistindo em não me presentear e a mais evidente seria por um suposto mau comportamento durante o ano, do qual eu descartara na mesma hora, pois não havia sido um anjo, mas se até a peste do meu visinho que se comportou todo o ano mal, que quebrava tudo quando estava bravo e havia posto fogo no tapete da sala, já tinha um enorme presente esperando para ser aberto depois da meia noite, era tão grande que nem coube debaixo da arvore de natal.
Então comecei a 'viajar' em minhas deduções: O Papai Noel era um velho orgulhoso que não aceitava a idéia de não conseguir entregar todos os presentes. Por que este velho ranzinza não pedia ajuda para seus amigos duendes? Por que ele não pagava hora extra para os baixinhos? Bom... Talvez fossem eles que não queriam trabalhar a mais para um barbudo metido e de risada falsa. Quem iria rir: Hou, hou, hou? Isto não existe! As pessoas normais riem: hihihihi, hahaha, sei lá, mas nunca Hou, hou, hou! Até retardado ele devia ser. Mas de qualquer forma ele tinha que se virar de alguma forma, ou quem sabe não presentear ninguém e assim ninguém iria sentir-se rejeitado. Com a ausência do meu presente eu teria que mais um ano mentir aos meus amigos que havia ganhado um presente e isto não me fazia bem.
Já passava das vinte e três horas e eu continuava ali escorado na janela. A estas alturas já conformado e enraivecido pela ausência do velho gordo. Será ele capaz de deixar uma criança de 8 anos sem presente? Isso poderia virar um trauma mais tarde e me transformar num ladrão, num assassino ou quem sabe até mesmo num travesti. - San, venha me ajudar com os talheres. Era mamãe, terminando de arrumar a mesa para a ceia de natal. Ela estava feliz neste dia, apesar de muito cansada, pois havia trabalhado muito durante o dia para conseguir comprar o pouco que tínhamos na mesa e meu pai nem havia chegado ainda, estava trabalhando fora com meu irmão mais velho.
Dei mais uma olhadinha para cada lado da rua e fui ao encontro de mamãe que já nem aguentava mais ficar de pé. Arrumei os talheres como ela havia me pedido e logo o barulho do giro da maçaneta me fez paralisar, seria o Papai Noel chegando com um saco cheio de presente nas costas? Não, era papai e meu irmão chegando do trabalho, encharcados pela chuva forte que caia e muito cansados do trabalho pesado, acho que só eles em todo o mundo trabalharam naquele dia. -Deixe-me ajudá-lo. Disse mamãe pegando as sacolas e pondo sobre a mesa. Papai não conseguiu nem me dar atenção pelo cansaço ter tomado conta de seu corpo e foi direto sentar no sofá. Já meu irmão me fez um cafuné e sentou-se a mesa.
Foi uma bela ceia de natal, a mesa estava bem farta, pois papai e o mano haviam trazido mais coisas para acrescentar, fiquei tão contente e animado pela chuva não ter impedido a queima de fogos de uma grande fábrica de fogos de artifício que havia bem perto de nossa casa. O Show de luzes de mescla de cores eram lindos, parecia uma cachoeira de luzes, outra hora pareciam leques brilhantes. Eram tantos formatos, defino como uma coisa fantástica que eu podia ver claramente da varanda da minha pequena casa. Olhei pela janela e vi o pestinha do meu visinho começando a abrir os presentes, e certamente iria deixar por último o presente gigante, só para me deixar na curiosidade, já que sabia que eu estava ali na janela o vendo abri-los. Até que eu não me cuidei e ele me viu de relance, mas neste dia diferente dos outros eu não me escondi, deixei que ele me olhasse, mas pela sua total ignorância, deu um sorriso com sarcasmo e logo me mostrou a língua. Eu poderia ficar com ódio, mas não, apenas baixei minha cabeça. Nesta hora senti uma mão tocar-me o ombro.
- San, não fique triste pelo que você não pode ter e sim fique feliz pelo que você tem e agradeça por isso.
Era meu pai. Ele me pegou pela mão, convidou minha família inteira para dar uma volta pela rua, tentar animar-me. Mamãe nem sequer o questionou por ele querer levar a família a passear naquela hora e com aquela chuva. Pegamos capas de chuva e guarda chuva, logo saímos para a nossa caminhada inusitada pelas ruas desertas. Mas minha família estava diferente. Eles realmente queriam animar-me, meu irmão chegou até fazer a coreografia do filme: Dança na chuva, rimos muito. Depois de caminhar exatamente três quarteirões, meu pai nos disse para voltar para nossa casa e ao virar algo muito horrível aconteceu. Um estrondo enorme seguido de uma explosão, era tão grande, chegando a levantar um cogumelo de fumaça em muitos metros de altura na direção da nossa casa. No primeiro momento, eu e minha família ficamos paralisados com aquela cena horrível e apavorante.
Logo depois meu pai disse para corrermos. As pessoas saiam de suas casas e corriam para salvar suas vidas, não tendo idéia o que estava acontecendo. Logo outra explosão. E continuamos a correr e correr... Aquela explosão foi provocada por um incêndio na fábrica de fogos de artifício, muitas pessoas morreram outras se feriram, mas eu e minha família não sofremos nem sequer um arranhão. Meus pais foram indenizados e com o dinheiro eles montaram nossa casa e um pequeno mercado, logo este mercado cresceu e cada ano crescia mais. Hoje tenho 30 anos e depois desta data nunca mais deixei de ganhar presente, na verdade sou muito bem sucedido. Devo minha vida aquele velho gordo, chato e barbudo, graças a sua ausência hoje estou aqui podendo contar-lhes minha história.