quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Esperando papai noel



Chovia muito naquela noite, já passava das vinte e duas horas, era vésperas de natal e eu aguardava ansioso aos pés da janela a chegada do Papai Noel já sem esperanças, na verdade eu nunca havia visto sua chegada, mas pelo menos ele deixara aos pés da árvore um presente, mas nesse ano nem sequer um presente estava sob a árvore de natal. Eu poderia pensar várias coisas se ele continuasse insistindo em não me presentear e a mais evidente seria por um suposto mau comportamento durante o ano, do qual eu descartara na mesma hora, pois não havia sido um anjo, mas se até a peste do meu visinho que se comportou todo o ano mal, que quebrava tudo quando estava bravo e havia posto fogo no tapete da sala, já tinha um enorme presente esperando para ser aberto depois da meia noite, era tão grande que nem coube debaixo da arvore de natal.
Então comecei a 'viajar' em minhas deduções: O Papai Noel era um velho orgulhoso que não aceitava a idéia de não conseguir entregar todos os presentes. Por que este velho ranzinza não pedia ajuda para seus amigos duendes? Por que ele não pagava hora extra para os baixinhos? Bom... Talvez fossem eles que não queriam trabalhar a mais para um barbudo metido e de risada falsa. Quem iria rir: Hou, hou, hou? Isto não existe! As pessoas normais riem: hihihihi, hahaha, sei lá, mas nunca Hou, hou, hou! Até retardado ele devia ser. Mas de qualquer forma ele tinha que se virar de alguma forma, ou quem sabe não presentear ninguém e assim ninguém iria sentir-se rejeitado. Com a ausência do meu presente eu teria que mais um ano mentir aos meus amigos que havia ganhado um presente e isto não me fazia bem.
Já passava das vinte e três horas e eu continuava ali escorado na janela. A estas alturas já conformado e enraivecido pela ausência do velho gordo. Será ele capaz de deixar uma criança de 8 anos sem presente? Isso poderia virar um trauma mais tarde e me transformar num ladrão, num assassino ou quem sabe até mesmo num travesti. - San, venha me ajudar com os talheres. Era mamãe, terminando de arrumar a mesa para a ceia de natal. Ela estava feliz neste dia, apesar de muito cansada, pois havia trabalhado muito durante o dia para conseguir comprar o pouco que tínhamos na mesa e meu pai nem havia chegado ainda, estava trabalhando fora com meu irmão mais velho.
Dei mais uma olhadinha para cada lado da rua e fui ao encontro de mamãe que já nem aguentava mais ficar de pé. Arrumei os talheres como ela havia me pedido e logo o barulho do giro da maçaneta me fez paralisar, seria o Papai Noel chegando com um saco cheio de presente nas costas? Não, era papai e meu irmão chegando do trabalho, encharcados pela chuva forte que caia e muito cansados do trabalho pesado, acho que só eles em todo o mundo trabalharam naquele dia. -Deixe-me ajudá-lo. Disse mamãe pegando as sacolas e pondo sobre a mesa. Papai não conseguiu nem me dar atenção pelo cansaço ter tomado conta de seu corpo e foi direto sentar no sofá. Já meu irmão me fez um cafuné e sentou-se a mesa.
Foi uma bela ceia de natal, a mesa estava bem farta, pois papai e o mano haviam trazido mais coisas para acrescentar, fiquei tão contente e animado pela chuva não ter impedido a queima de fogos de uma grande fábrica de fogos de artifício que havia bem perto de nossa casa. O Show de luzes de mescla de cores eram lindos, parecia uma cachoeira de luzes, outra hora pareciam leques brilhantes. Eram tantos formatos, defino como uma coisa fantástica que eu podia ver claramente da varanda da minha pequena casa. Olhei pela janela e vi o pestinha do meu visinho começando a abrir os presentes, e certamente iria deixar por último o presente gigante, só para me deixar na curiosidade, já que sabia que eu estava ali na janela o vendo abri-los. Até que eu não me cuidei e ele me viu de relance, mas neste dia diferente dos outros eu não me escondi, deixei que ele me olhasse, mas pela sua total ignorância, deu um sorriso com sarcasmo e logo me mostrou a língua. Eu poderia ficar com ódio, mas não, apenas baixei minha cabeça. Nesta hora senti uma mão tocar-me o ombro.
- San, não fique triste pelo que você não pode ter e sim fique feliz pelo que você tem e agradeça por isso.
Era meu pai. Ele me pegou pela mão, convidou minha família inteira para dar uma volta pela rua, tentar animar-me. Mamãe nem sequer o questionou por ele querer levar a família a passear naquela hora e com aquela chuva. Pegamos capas de chuva e guarda chuva, logo saímos para a nossa caminhada inusitada pelas ruas desertas. Mas minha família estava diferente. Eles realmente queriam animar-me, meu irmão chegou até fazer a coreografia do filme: Dança na chuva, rimos muito. Depois de caminhar exatamente três quarteirões, meu pai nos disse para voltar para nossa casa e ao virar algo muito horrível aconteceu. Um estrondo enorme seguido de uma explosão, era tão grande, chegando a levantar um cogumelo de fumaça em muitos metros de altura na direção da nossa casa. No primeiro momento, eu e minha família ficamos paralisados com aquela cena horrível e apavorante.
Logo depois meu pai disse para corrermos. As pessoas saiam de suas casas e corriam para salvar suas vidas, não tendo idéia o que estava acontecendo. Logo outra explosão. E continuamos a correr e correr... Aquela explosão foi provocada por um incêndio na fábrica de fogos de artifício, muitas pessoas morreram outras se feriram, mas eu e minha família não sofremos nem sequer um arranhão. Meus pais foram indenizados e com o dinheiro eles montaram nossa casa e um pequeno mercado, logo este mercado cresceu e cada ano crescia mais. Hoje tenho 30 anos e depois desta data nunca mais deixei de ganhar presente, na verdade sou muito bem sucedido. Devo minha vida aquele velho gordo, chato e barbudo, graças a sua ausência hoje estou aqui podendo contar-lhes minha história.

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