
- Mais um dia, hoje é apenas mais um dia. Estou aqui na minha velha cadeira de balanço e aos meus pés meu único e verdadeiro amigo, Tóby, um cão da raça policial, do qual me acompanha há tantos anos. Hoje ele não tem muita visão e treme quando ouve um latido mais forte. Lembro-me de quando ele era novo, com vigor, eu já era velho, mas infelizmente para os cães o tempo passa muito mais rápido. Não tinha cachorro mais bravo do que Tóby em todo o quarteirão, ao contrário de hoje em dia, ele que fazia os outros cães tremerem só com o seu latido. Mas agora ele mal tem forças de mastigar sua ração.
Vejo crianças brincando no outro lado da rua, lembro de quando eu era jovem que subia e descia de árvores, quando eu jogava bola com meus amigos, quando eu trabalhava para o exercito, resumindo quando eu ainda sentia-me útil. Agora que já estou velho, não tenho mais nada a que fazer apenas viver o dia de hoje do mesmo jeito que eu vivo o dia de ontem e como vou viver o dia de amanhã. Não tenho mais expectativas de vida, como pudera também? Já tenho oitenta e sete anos e nessa idade fazer planos para que? Para viver dois ou três anos? Deixar o que vou conquistar para o governo? Só se for, pois nunca tive filhos e minha amada esposa morreu há sete anos atrás. Então vou seguindo assim como estou, não atrapalhando ninguém e não sendo atrapalhado.
O que mais pergunto a Deus é porque estou aqui, nunca fiz algo de tão útil. Algo do me marcasse até depois de minha morte. Não para ganhar méritos, mas sim para ficar bem comigo mesmo e saber que meus oitenta e sete anos valeram para alguma coisa. Não que minha vida não tenha sido boa, mas foi boa apenas a mim mesmo, tornando-me até um ser egoísta. Algum tempo atrás achei que minha missão avia se concretizado, quando cuidei de Helen, minha amada esposa. Ela não conseguiu recuperar-se de um forte derrame que tivera, a doença paralisou-lhe todo o lado esquerdo do corpo e mesmo tendo setenta e oito anos ela gostara muito de arrumar-se bem. Na verdade Helen jamais deixou de arrumar-se muito bem, pois nos conhecemos jovens, ela mal fizera dezessete anos e nos casamos. Apenas deixou se abalar após descobrir q não poderia ter filhos, mas isso durou alguns meses e logo passou. Depois que Helen sofrera o derrame ela não queria nem a visita de amigos e visinhos, pois não queria o sentimento de pena de ninguém e nem que as pessoas vissem seu rosto deformado. Fiz tudo que poderia fazer por ela, comprava-lhe vestidos, maquilagem, na tentativa de levantar sua alto-estima, mas era sempre em vão, quando ela olhara no espelho sempre via a sua realidade. Helen parou de caminhar, de sorrir e de querer viver. Até que a depressão a levou de mim, deixando-me sozinho. Então achei que era esta minha missão. Mas logo percebi que não era minha missão e sim o amor, a convivência e o medo de ficar sozinho, não cuidei de Helen só por ela, mas sim principalmente por mim, e se fiz por mim não é uma missão.
Sempre venho para a varanda ver as crianças brincarem no parque, pois lembro de quando eu era criança e sinto muita saudade de minha mãezinha, parece que lembro como se fosse hoje, fazendo a comida com seu lencinho cobrindo seus longos cabelos, quando sentava comigo e ensinava-me os perigos do mundo. Quando cantava musicas lindas de ninar, dos quais fazia minhas pálpebras pesarem de sono, com a suavidade de sua voz e quando machucava-me após cair um tombo em uma árvore ela colocava-me em seu colo e balançava-me dizendo que já ia passar e realmente logo passava e lá estava eu sobre uma árvore. Mamãe falecera aos 32 anos de pneumonia.
O que fazer de janta? Sopa ou uma carninha assada? Que nada, farei um cafezinho e comerei bolachas salgadas, não vou ir para o fogão, estou com um pouco de dor nas pernas. Amanhã levantarei cedo para consertar a cerca que já está velha, não mais que eu, mas está. Apenas rindo de minhas desgraças consigo ter um pouco de ânimo para continuar aqui neste mundo. Pois quem não aceitar sua condição é não aceitar sua realidade e não aceitar sua realidade é querer ser algo que você não é. Então fica tudo mais doloroso. Basta entregar nas mãos de Deus e apenas pedir auxílio para fazer tudo o que for de seu agrado. Pois não quero ser punido lá encima, ainda mais agora que estou velho e tenho pouco tempo neste mundo. Vou levantar-me e entrar em casa e fazer o que já é de costume, ver fotos antes de dormir e chorar lembrando-me do passado e rezar pedindo a Deus que me leve logo já que não a mais nada a fazer neste mundo.
Meu Deus, o que é isso? Não acredito no que estou vendo, uma das crianças esta no meio da rua indo buscar uma bola, e um carro esta em alta velocidade indo a sua direção, tenho que fazer alguma coisa. Estou correndo o máximo que posso em direção a criança, falta pouco e o carro está cada vez mais próximo, não vou conseguir! Consegui a empurrar para a calçada... Jesus, o carro me pegou em cheio, estou muito machucado, não sinto meu corpo, a dor é tão grande, as pessoas que estão em minha volta estão apavoradas, devo estar com vários ossos quebrados. Vejo uma luz, uma luz forte e alguém da luz vem em minha direção. Nossa é minha mãezinha, ela está me pegando no colo e agora sou uma criança. Seu sorriso é lindo e seu canto fez minha dor parar imediatamente até que ela me pos ao chão novamente. Agora sou jovem e bonito e alguém bate em meu ombro, puxa... é minha Helen, a Mesma Helen que conheci quando tinha dezessete anos, linda.
Salvei aquela criança e seus pais ficaram muito gratos por mim, como todo o quarteirão batizando a praça com meu nome, Tóby foi adotado pelos pais da criança que salvei. Encontrei a paz e hoje sei qual era a minha missão.
Léo Ramos
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